Quando eu era menino, minha avó me levava para o terreiro da Dona Maria, na Vila Miriam. Eu tinha meses de vida quando comecei a ir, e cresci ali dentro. O que eu mais lembro daquela época não é uma fala nem uma roupa. É um som. O som do atabaque.
Eu ficava sentado num canto, olhando o Rodolfo tocar. As mãos dele voavam no couro e o som batia no meu peito. Eu não sabia explicar o que era aquilo. Só sabia que queria ficar perto. Foi ali, ainda criança, que eu me apaixonei pelo atabaque. E essa paixão nunca mais me largou.
Hoje, depois de tantos anos de terreiro, eu posso dizer com calma: o atabaque é o coração do terreiro. Sem ele, nada anda.
O que é o atabaque
O atabaque é um tambor sagrado, feito de madeira e couro. Ele tem voz própria. Cada tamanho tem um som: o rum, que é o maior e mais grave, o rumpi, que é o do meio, e o lê, que é o menor e mais agudo. Juntos, os três conversam. Um responde ao outro, e dessa conversa nasce o ritmo da gira.
Não é um instrumento qualquer. O atabaque é consagrado, tratado com respeito. Quem toca não bate num tambor. Toca num instrumento que carrega axé, que carrega história. Por isso o atabaqueiro lava as mãos, pede licença e só então começa.
O atabaqueiro e a curimba
O atabaqueiro é quem toca o atabaque. É ele quem segura o ritmo da gira do começo ao fim. Um bom atabaqueiro conhece os toques de cada orixá, sabe a hora de apertar e a hora de acalmar. O toque dele guia o passo de quem está na roda, guia o canto e guia a chegada dos guias. Na Umbanda, quem toca é chamado de atabaqueiro ou curimbeiro. No Candomblé, o nome é ogan.
Do lado dele fica a curimba. A curimba é o coro do terreiro: quem canta os pontos e acompanha com palmas, agogô e adjá. Atabaque sem cantiga é só barulho. Cantiga sem atabaque é só voz. Juntos, os dois fazem a gira acontecer.
Eu mesmo aprendi a tocar ouvindo e olhando. Depois virei instrutor de curimba, dei aula, formei gente. E até hoje, quando eu pego num atabaque, volta tudo: o cheiro do terreiro da Dona Maria, o som do Rodolfo e do Adilson ,a minha avó do meu lado.
O toque chama o orixá
Cada orixá tem seu toque e suas cantigas. O toque de Ogum não é o toque de Oxum. O toque de Iemanjá não é o toque de Xangô. Quem é do terreiro reconhece na hora, só de ouvir os primeiros segundos.
É assim que a gira funciona: o atabaqueiro toca, a curimba canta, e o chamado chega. O atabaque fala a língua dos orixás. A cantiga conta a história deles. Quando o toque e a cantiga se encontram, o orixá se aproxima, a energia muda e todo mundo sente.
Por isso a gente diz que o atabaque não acompanha a gira. Ele comanda a gira. Ele marca o tempo do sagrado.
Sem atabaque, o terreiro não anda
Pode ter vela, pode ter flor, pode ter gente bonita e roupa branca. Se não tiver atabaque, falta o pulso. A gira fica sem passo, o canto fica sem chão. O terreiro respira pelo atabaque.
Eu já vi gira começar tímida e crescer quando o atabaqueiro firmou o toque. Já vi gente chorar só de ouvir a primeira cantiga. O som do couro acorda uma coisa dentro da gente que palavra nenhuma acorda. É o coração batendo junto com o tambor.
Se você nunca esteve num terreiro, vem ouvir. Não precisa entender tudo de primeira. Deixa o som entrar. O atabaque fala com todo mundo, até com quem chegou agora. E se você já é da casa, sabe do que eu estou falando: quando o rum começa, o corpo já sabe o que fazer.
Axé,
Pai Fabinho de Oxalá
